Palmas (TO),

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    15/02/2020

    CRÔNICA| O amor é cego

    ©REPRODUÇÃO
    Se um preto e uma branca, uma gorda e um magro, um baixo e uma alta e uma jovem e um velho passeiam de mãos dadas pelas ruas, trocando carícias, dizendo coisas ao ouvido de um e de outro, rindo de coisas simples e em voz baixa fazendo planos, poderiam dizer alguns e pensariam outros, que estão fora do jogo, que o amor é cego, coitado. 

    Nessa hora, o amor responderia que pior cego é aquele que não quer ver. Porque o amor olha com olhos diferentes, o amor de olhar por dentro de cada um, e dentro de cada um dos amantes há um mundo inteiro a compartilhar, e que mantém aqueles que passam, olham e imaginam muito longe desse compartilhamento, de que os olhos do amor enxergam tudo, tudo aquilo que aqueles que não amam, ou não estão no estado de amar, não conseguem enxergar. 

    O amor é cego porque ele tateia o corpo de quem se ama, como a cegueira que procura a zona de conforto. O amor é cego porque ultrapassa as barreiras do preconceito, do padrão de beleza e não vê diferença no tempo entre dois cegos a se encontrarem. 

    O amor, como o cego, esbarra naquilo que não vê, como se fosse o encontro do acaso, uma química qualquer se esvai e percorre todo o corpo, não sabendo bem no que esbarrou o olhar e, de repente, tudo em volta para, e procura entender o que está a sua frente, não pensa em escapar ou evitar, mas, pelo contrário, deseja mergulhar fundo para descobrir o que fazer com aquilo que enternece o corpo e a alma, e nos faz apaixonar. 

    O cego procura melhorar e aguçar os outros sentidos que lhe restam, o amor, ao contrário, desliga tudo que tem em volta e fecha os olhos procurando curtir aquela escuridão, que vem de surpresa calando as vozes da multidão. 

    O cego segura a mão daquele que o guia, o amor segura a mão da cegueira e se entrega ao prazer de cada dia. 

    O cego evita o obstáculo, o amor o enfrenta e acolhe, o cego procura chegar ao destino em segurança, o amor se prepara para a mudança, sabendo que nada será como antes. 

    O cego chega ao destino e fecha a porta se retirando ao seu mundo particular, onde tudo lhe é familiar, o amor abre uma porta nova e se deixa naufragar e se entrega ao destino e à aventura. 

    O amor é cego por muitos motivos: é um guia amante da cegueira que leva outro cego pelo braço; aproxima dois seres que sem pensar dizem segredos de si para cada um em momentos de ternura; pensa que mais vale dois pássaros voando com as mãos entrelaçadas do que um pássaro sozinho, triste e amargurado. 

    Por: Nílson Lattari

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