Palmas (TO),

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    14/03/2020

    CRÔNICA| Essa coisa de ser escritor

    ©DIVULGAÇÃO
    Até que eu gosto de falar de mim mesmo. Como escritor, é claro! O escritor é, antes de tudo, um egoísta, egocêntrico, prepotente, acha que o seu texto é o melhor do mundo e a sua desclassificação foi completamente injusta. Adoro isso! Até porque se você não gosta do seu texto, quem vai gostar? A gente, é claro! 

    Fico imaginando a visão que as pessoas têm dos escritores: personagens glamorosos, ricos de inventividade, sempre alegres, propensos a ataques de bom humor e, principalmente, príncipes encantados. Pois, acredite, não é nada disso. Temos gripes naquelas fases do ano, muitas vezes falta dinheiro, fazemos supermercados e vamos às feiras, apalpando os tomates e legumes como se entendêssemos alguma coisa. Afinal, escritor sabe das coisas. Pois é tudo mentira, mentira porque ela é a nossa matéria prima. Um escritor mente tanto, que às vezes que mente por vaidade transforma essa mentira em uma história de verdade. E copia as ideias de alguém, como você pode perceber. 

    Ao ler um romance, você fica imaginando que o personagem que nós criamos, no fundo, no fundo, somos nós. É mais ou menos isso, toda história são meias verdades misturadas com meias mentiras. 

    Mas, uma coisa é certa, pense bem. Se um escritor fizer uma declaração de amor para você, acredite, é verdade. Ele fez uma declaração de amor única, somente para você. A criatividade é nossa matéria prima, nosso talento, é um talento suficiente para fazer uma para cada uma das pessoas que nos atraem. E sem repetir, o que é importante. 

    Alguns dizem que escritores têm pacto com um algum bruxo ou bruxa, que lhe sopra no ouvido as palavras, a história completa. Alguns se dizem obcecados, que se trancam em um quarto, outros que escrevem vinte e quatro horas por dia e essas coisas. 

    A minha bruxa eu nunca vi, e a maioria das coisas que ela fica soprando parece coisa de bêbado, sem sentido nenhum. Fico imaginando alguém escrevendo vinte e quatro horas por dia! No meu caso pessoal reservo oito horas para dormir, ajudar no serviço da casa, sair, resolver problemas, ter um trabalho sério para ganhar dinheiro, e de repente ter uma ideia. Mas, na maioria das vezes, não sai nada, por dias, e isso dá um desespero, uma sensação de que o saco esvaziou e nenhum coelho vai sair da cartola, e não sai mesmo. 

    Escrever não é um hábito, é um talento como qualquer outro, como o jogador de futebol, o cara que trabalha em propaganda. Têm dias que são horríveis e têm dias que são incríveis. 

    Noventa e nove por cento de trabalho e um por cento de inspiração, a questão é fazer valer esse um por cento e escrever de uma forma diferente aquilo que alguém quer ler.

    Por Nilson Lattari

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