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    09/06/2021

    ARTIGO| Qual o valor da saúde mental?

    Autora: Kamila de Souza*
    Esse final de semana recebi uma postagem que discutia o seguinte: “como ter acesso ao serviço de saúde mental sendo que é um absurdo?” e uma outra que dizia “profissionais de psicologia devem atender com preço social, pois é um absurdo manter o valor desses serviços em um tempo como o da pandemia.”.

    Bem, vamos lá! Primeiro, percebem que o título diz de valor e as postagens (que sintetizam e apontam muito bem o discurso de uma boa parcela da população) dizem de preço? Segundo, como dizem os meus pacientes adolescentes: “qual o rolê” de ditar que todo mundo tem que fazer terapia? E mais, de ainda ditar um preço para esse serviço, segundo a própria vontade de quem dita?

    Vale deixar claro, de maneira bem simples e direta, que a crítica é uma coisa, a deselegância, a grosseria e os posicionamentos cegos são outras coisas. A crítica, voltando lá em Adorno, filósofo e sociólogo, diz de um movimento de colocar a coisa diante dela mesmo e discorrer sobre isso. Engraçado, não? Parece um processo analítico! Eu costumo dizer que quando criticamos algo estamos na arquibancada de um grande estádio, não só assistindo as ações que ocorrem no campo, mas descrevendo, pontuando, analisando, referenciando... Críticas não precisam ser partidárias, mas produtivas. Logo, toda crítica constrói e reconstrói coisas, paradigmas, conceitos, ideias, enfim.

    Seguindo. O contexto da pandemia escancarou a fundamentalidade dos serviços de saúde mental para que os sujeitos consigam suportar, manejar e direcionar suas angústias e sofrimentos. Se tem uma coisa que os serviços de saúde não oferecem é a felicidade plena e a resolução total dos problemas (se te oferecerem isso, corra!), já que é condição constituinte do ser humano ser faltoso, falho e, como dizem os antigos: “enquanto houver vida haverá problema”. E aí, as pessoas se questionam: “se não vai me fazer feliz ou me curar, para que então?”. A felicidade é o maior negócio da sociedade capitalista e pós-moderna, meus amigos. E como todo negócio-objeto, está fadada à obsolescência.

    Em análise e/ou em uma psicoterapia ética, conduz-se tratamentos para que o sujeito consiga suportar a vida, revisite a sua história sem tanta dor, elabore questões chamadas traumáticas, se posicione no trabalho, em seus relacionamentos e no mundo de uma forma mais digna e possível, de acordo com aquilo que ele consegue. Veja, nem todo mundo consegue tudo, justamente pela diferença radical entre nós. Logo, temos vidas, desejos, anseios, demandas, questões diferentes e cada um olha para isso de uma forma e vê uma necessidade ou uma urgência de trabalho/resolução. Como afirmar, diante disso, que todo mundo precisa de terapia?

    Nem todo mundo precisa, mas quer. Muita gente não quer, mas precisa. Que valor isso tem? Estaríamos tornando, então, a saúde mental e seus serviços mais um produto cobiçado em nossos dias? Tipo: “todo mundo tem um smartwatch, eu também preciso ter.”, sob quais condições, por quais razões e com qual consistência? De outro lado, o que alguns profissionais têm propagado pela internet a ponto de que o que eles compartilham apontam para uma promessa, o alcance de um ideal, o tampão de um buraco tão sonhado? Bem, eu não sei. Mas, adiante!

    Vocês sabem o que é a formação de um psicólogo e de um psicanalista sério? Ressaltei o sério por existirem alguns engraçadinhos (aos que não entendem sarcasmo, me refiro a infrações éticas). Psicologia: 5 anos de formação, materiais caríssimos, construção da habilidade para trabalhar o conteúdo do outro do ponto de vista da ciência, sem envolvimentos. Mestrado, doutorado (nos USA, por exemplo, um psicólogo só é autorizado a tirar a sua licença para atender quando dispõe do título acadêmico de doutorado), congressos, cursos etc. A psicologia estuda a psiquê, então o conteúdo (o discurso, o sofrimento) é material de trabalho, condução e intervenção visando uma cura como norte. E isso, meus amigos, não é fácil e não é para qualquer um. Trabalhar com órgãos, peças e números é fácil, com aquilo que não se apalpa para tratar não!

    Psicanalista: análise pessoal, supervisão dos casos, grupos de estudos, congressos, atendimentos, livros, formações extras que articulam a todo o tempo o pressuposto de que um analista leva a análise dos seus pacientes até onde ele caminhou em seu próprio percurso (simplificando a fala de Lacan, pelo contexto), trocas com os seus pares durante a formação, dentre outras coisas. A psicanálise analisa a psiquê, o discurso, aquilo que está para além do dito, baseado no saber (não-saber) inconsciente. Então, em psicanálise, a condução do tratamento se dá para que cada um desenrole o novelo da sua vida dentro daquilo que lhe é possível, suportável, singular e autoral. Ou seja, cada um constrói a sua cura.

    Escolhi essas duas por serem serviços essenciais de escuta ao sofrimento. Uma não é melhor que a outra. Cada uma tem a sua frente de acolher com propriedade, ética e, sobretudo, formação, o sofrimento humano. Então, outro ponto: uber não é “meio psicólogo”, pastor também não, a dona Maria tampouco e seus amigos muito menos. Todos têm a sua importância e um não substitui o outro, mas os profissionais é que dispõem de formação e técnica para não dar pitaco na sua vida e para dirigir o seu tratamento, não você.

    Caminhando para o final, quanto “custa essa brincadeira, então?”. Eu vou responder com outras perguntas: quanto você paga na sua academia? Quanto você bebe de cerveja em um final de semana? Quanto você compra de roupas, que você nem vai usar porque deveria estar em isolamento social? Quanto você paga de consulta só para tomar remédio e não resolver a causa dos efeitos psicológicos que você vem tendo? Quanto custa viver sem avanços? Quanto custa não se responsabilizar por seus posicionamentos? Quanto custa perder o seu sintoma/sofrimento para ganhar vida?

    A dinâmica contemporânea coloca preço nas coisas. E justamente por um Iphone ter preço isso não está aberto a negociações. Você se arrebenta de trabalhar, faz empréstimo, pede para o namorado metade, tira das compras de casa e compra. Ponto. E para que? Todo esse “rolê” para que? Para ter o telefone que todo mundo tem, no final das contas? “Ah, mas não trava!”. Certo, ele não, mas os seres humanos travam na vida para terem coisas que não travam. E sob quais condições, até que ponto? Isso reduz muito a capacidade de negociação.

    Negociar! Se algo tem valor é da ordem do valor a negociação. O rasgar o verbo e dizer “olha, eu não consigo pagar X, mas Y para fazer o meu tratamento”, já que é assim que pessoas que estão com dificuldade de dinheiro, que moram nas favelas do Rio, de São Paulo, que foram despedidas, que estão em situação de rua, que são ribeirinhas, têm pagado seus tratamentos. É desse modo que alguns profissionais vêm cobrando. É desse modo que redes de acolhimento de serviço de saúde mental vem facilitando o acesso aos serviços de saúde mental, em diversos contextos, dentre outras possibilidades.

    Lembrando que cada caso é um caso, e isso é soberano, nem tudo que tem preço tem valor, mas se tem valor para você negocie. Para ganhar é preciso perder, mas vivemos em um recorte de tempo em que, infelizmente (ou não, não sei...) todo mundo só quer ganhar, mas um ganho díspar “eu ganho, mas você não me interessa!”. Outra coisa, o valor de um trabalho negociado está em uma relação que envolve muitas coisas. Acessar esse trabalho também envolve muitas coisas. E acessar um serviço de psicanálise ou de psicologia está mais para o lado do preconceito, do desinteresse em investir, do desconhecimento e da ignorância de alguns do que da impossibilidade de pagar com dinheiro.

    *Psicóloga, especialista em Saúde Mental, Psicanalista em formação.

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